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ARTIGOS

Psicanálise é ciência?

Psicanálise é ciência?

 *** Marcelo Vinícius

A questão sobre a Psicanálise ser uma ciência ou uma filosofia é muito polêmica. A ciência empírica ou a ciência clássica comporta conceitos que permitem definir o que é ciência ou não nos atuais corpos de conhecimentos? Será que é preciso rever os nossos conceitos?

A ciência é considerada por muitos um método empírico e que não há outro método que garanta a qualidade das informações obtidas em um corpo de conhecimento. O que não pode ser experimentado, testado e repetido não seria digno de confiança ou pelo menos não teria uma credibilidade científica. De certo modo, os experimentos que envolvem objetos macros e questões objetivas como na física clássica, é de grande importância que o empirismo seja realizado. Mas, há fatos atualmente, que não comportam determinados conceitos tradicionais e é preciso rever essas considerações para se estudar esses novos acontecimentos, pois não se pode ignorar a realidade que vem sendo apresentada, a realidade da relatividade, da subjetividade e do microscópio, senão, não estaríamos mais falando de ciência e sim de uma nova crença.

Os métodos e os conhecimentos clássicos devem ser conservados, claro, já que temos eventos que se encaixam e funcionam muito bem com os mesmos, mas é preciso salientar que deveremos estar preparados para o novo, para o que vem acontecendo como realidade, já que não é a realidade que tem que se adequar a nossa lógica e sim a nossa lógica que tem que se adequar a ela, óbvio.

A questão da Psicanálise não ser um procedimento empírico ou experimentado não tira dela a credibilidade, pois sendo assim, se a metodologia experimental fosse uma questão indispensável para elaboração de teorias, não só a Psicanálise, como também a Psicologia, a Biologia, a Arqueologia, a Astronomia e uma parte interessante da própria física estariam impossíveis em serem consideradas como algo científico.

Segundo Raul Albino (Professor e Doutor em Psicologia)*, se formos questionar o caso da Psicologia, a maior parcela dos fenômenos relevantes não poderia ser investigada, por razões de ordem ética que impedem submeter seres humanos a determinadas condições de experimentação.

Já a Astronomia e a Arqueologia, os testes não podem ser realizados na maioria das vezes. As informações obtidas através dessas ciências são originadas de observações não experimentais, ocorrendo também casos e que não são poucos, em que essas informações vêm de avaliações casuais. Ken Wilber, famoso pensador e criador da Psicologia Integral expressa que a ciência envolve três elementos:

1- Seguir uma instrução, injunção ou paradigma

2- Apreender algo sobre esta realidade específica

3- Comparar nossas descobertas com as dos outros

Esses três "elementos" operam na ciência de uma forma óbvia: um astrônomo (1) olha através de um telescópio, (2) observa uma certa região do universo e (3) discute suas descobertas com colegas astrônomos (e não conosco, meros mortais, um ponto muito importante).

Em relação à Biologia, esta tem um fator bastante importante, pois dentro de uma ciência como ela que se avalizam em experimentações, há conhecimento que é muito relevante e bastante apreciado, mas que não tem a sua origem de informações em contextos experimentais, que é o caso da Teoria da Evolução. A física, sendo uma grande ciência de ponta, possui uma teoria também aceitável, fora dos contextos experimentais, que é a teoria da origem do universo, a qual há bastantes especulações.

Então, considerar a Psicanálise como sendo inviável ou impossível de ser uma ciência, é limitar ou inviabilizar muitos ramos científicos, como o que acabamos de citar, além de desconsiderarmos disciplinas como a sociologia, a economia, a história e a administração, já que essas disciplinas usam métodos análogos à psicoterapia em questão. O fato é que não existem disciplinas científicas que estejam isentas de interpretações, de teorias, e se isso é válido, pode ser claramente correto para a Psicanálise também.

É difícil ou impossível que a Psicanálise venha ser um dia uma ciência empírica, já que as consideradas ciências empíricas sofrem certas dificuldades, quanto mais a Psicanálise que trabalha com questões relativas e subjetivas, pois acredito que conflitos mentais são muito relativos e subjetivos. Não há um padrão humano, ou seja, se um ser humano tem uma depressão, as causas são diferentes, apesar dos sintomas serem iguais. A "causa" que as pessoas tanto procura nas suas neuroses não é uma questão objetiva, que pode ser compartilhada por mais de uma pessoa, ela é subjetiva porque pertence e acontece unicamente a um sujeito... Logo os métodos subjetivos são os melhores.

Mas, apesar dessa questão subjetiva da Psicanálise ser inviável ao experimento, ela é realmente lógica. Aliás, poderemos também ir mais longe que a lógica na Psicanálise, pois é possível submeter observações dos fenômenos que a Psicanálise desvendou, como a importância incontestável do inconsciente nos atos humanos, as questões que envolvem o Complexo de Édipo, o qual ninguém pode escapar e as inúmeras outras coisas que a Psicanálise permitiu conhecer. É possível realizar essas observações com a interação do analista e o analisando, tranqüilamente.

Não há problemas quanto à Psicanálise, pois como observamos, a ciência empírica não é o único tipo de ciência existente. O fato de que não corresponde a tal modelo não significa que seja um amontoado de teorias absurdas. Ela se organiza como um corpo articulado, com pressupostos, métodos, hipóteses, regras de dedução e validação.

Segundo Renato Mezan (Psicanalista)**, a Psicanálise não é um experimento, em que certas variáveis seriam manipuladas com vistas à verificação ou exclusão de dada previsão. E isso pela boa e simples razão de que as próprias descobertas da análise modificam a dinâmica psíquica do paciente. Um tempo depois de iniciado o trabalho, ele já não é o mesmo paciente das primeiras sessões.

Os tempos estão mudando e a nova ciência vem mostrando novos conceitos que não devem ser ignorados. Essa “Nova ciência, a qual considera o caos, a incerteza e a subjetividade, fatores relevantes para que se pense o objeto científico.”

Os métodos tradicionais, objetivos da ciência como certa parte da física e a matemática, dar lugar aos subjetivos, relativos e incertos como a Mecânica Quântica, a física quântica, entre outras e por que não a Psicanálise? Esta também é subjetiva ou não? Os próprios físicos dizem que a quântica é a ciência da incerteza. Os experimentos de Planck marcam o início da física quântica, que estuda o comportamento das partículas subatômicas, que não obedecem às leis do movimento codificadas por Newton.

São os novos conceitos que aparecem de frente como fatos e não podem ser negados. A Psicanálise, a química moderna, a mecânica quântica, a física quântica e várias outras ciências, forçaram o homem a cair na realidade das incertezas que gerou a Revolução da Incerteza que pode ter destronado o determinismo newtoniano.

Então, a Psicanálise assim como qualquer ciência moderna possui a sua epistemologia própria. Veja a física quântica, ela é tão moderna que possui a sua própria epistemologia e por isso não é ciência? O físico brasileiro Mário Schenberg declarou que "a Física e a Psicologia são aspectos diferentes de uma mesma realidade, vista sob ângulos diferentes". Reforçando, um novo conceito científico é necessário para uma nova realidade.

Concluo esse artigo com duas citações:

“A Psicanálise tem na sua base a ciência e a filosofia e bebe delas, criando uma característica própria de conhecimento que é tão válida e importante quanto a ciência empírica, criando uma epistemologia particular, já que um corpo de conhecimento para ser importante e aceita não precisa necessariamente ser cientifica (empírica) e isso é fato. Existe universidades e institutos que investem em recursos e pesquisas relacionadas à Psicanálise.” (Marcelo Vinicius)

"É a Psicanálise ciência? Que ciência? Partindo de tais indagações, poderíamos afirmar o seguinte: em relação à primeira indagação, se discutirmos a Psicanálise exclusivamente do âmbito do empirismo lógico, ou mesmo da perspectiva de Popper e de outros autores que se baseiam na visão clássica da ciência e defendem fundamentalmente os pressupostos derivados da física de Newton, sob tal prisma, ela não pode ser considerada uma ciência. Em relação à segunda indagação, caso a problematizemos pela crítica de Bachelard e caminhemos ao encontro da Nova ciência, a qual considera o caos, a incerteza e a subjetividade, fatores relevantes para que se pense o objeto científico, então, ela é uma das ciências das mais atualizadas" (Rogério Lustosa)

* Raul Albino é professor do Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Social e da Faculdade de Psicologia da PUC-SP. Doutor em Psicologia pela Universidade de São Paulo.

** Renato Mezan é psicanalista e autor, entre outros livros, de Freud, Pensador da Cultura, Escrever a Clínica e Tempo de Muda.

Referências:

ALBINO, Raul Pacheco Filho. Psicanálise, Psicologia e Ciência: continuação de uma polêmica. Artigo. 1996.

Revista VEJA. Editora: Abril - Nos 100 anos de A Interpretação dos Sonhos. 05.05.1999

Rogério Lustosa Bastos. Psicanálise e o Pensamento Científico: Entre o Fisicalismo e/ou a Contraciência em Diferentes Modos de Subjetividade. Artigo. 2001.

GILMORE, ROBERT. Alice no pais do quantum: a física quântica ao alcance de todos. Editora: jorge zahar. São Paulo. 1998.

MILHOMENS, NEWTON. O Misticismo à Luz da Ciência. IBRASA. São Paulo. 1997.

*** Marcelo Vinicius Miranda Barros
(Graduado em tecnologia, formando em Psicanálise e estudante da filosofia orientalista)

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