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Neste artigo,
será explanado o debate entre Marcelo Vinícius (estudante de psicanálise,
estudioso da filosofia orientalista e tecnólogo) e Jan Robba (psicólogo clínico
da linha comunicacional).
As obras da psicanálise e o emprego de
terapias alternativas focam o desenvolvimento dos humanos nos feitos emocionais,
pessoais e sociais melhorando a auto-estima e o direito de conviver com
qualidade.
É preciso salientar que não é qualquer terapia alternativa
que é válida e sim aquela analisada e testada cientificamente. A psicanálise não
é substituída pela terapia alternativa, há apenas uma parceria, como ocorre com
o psicanalista e o psiquiatra.
DEBATE:
Marcelo:
Jan, o que acha da psicologia transpessoal? E do budismo?
Claro que sabemos que o budismo não é uma ciência. Mas, nas últimas
décadas ele tem sido também alvo do interesse de certos ramos de ponta da
ciência, em especial do campo das neurociências, interessadas em explorar a
enorme riqueza de observações empíricas que sustentam os conceitos budistas
sobre a mente.
Os benefícios da Meditação foram provados
cientificamente. Estudos americanos, feitos pela Universidade de Oregon, nos
Estados Unidos, confirmam os benefícios da meditação. O estudo mostrou que cerca
de 20 minutos por dia já basta para reduzir a ansiedade, diminuir os níveis de
cortisol – hormônio responsável pelo estresse – e melhora a concentração. Mas a
meditação ainda continua sendo um mistério.
Experiências com Budistas em
meditação mostram que, no ápice da jornada meditativa, ocorre redução drástica
de seu campo de orientação. A suposição é que essa região cerebral se faz
temporariamente "cega" para os dados provenientes dos sentidos - o que
explicaria sua sensação de ligação indissolúvel à totalidade da Criação.
Há psiquiatras que estão recomendando a meditação, como efeitos
terapêuticos, para os seus pacientes.
O médico e psicólogo Paulo Castro
da CEP-SEARA diz que a meditação “a baixa a pressão arterial, diminui o ritmo
cardíaco e lida com o” stress “.
Jan: Caro Marcelo,
Desde bem garoto eu já tinha uma admiração muito grande pelo budismo
tibetano e pelo Kung fu. Com relação à meditação, eu diria que, bem feita,
conduz o praticante a um estado semelhante ao que se experimenta na hipnose. De
fato, o que se afirma com relação à meditação é verdadeiro. Há, porém muita
coisa no mercado que se faz passar por meditação e não é. É necessário então
saber distinguir uma coisa de outra. O budismo é uma forma muito avançada de
religião.
Marcelo:
Alguns ramos da psicologia moderna,
neurociência e até algumas importâncias da física quântica estão descobrindo
observações empíricas que sustentam os conceitos budistas sobre a mente. Não só
a "psicologia" que o budismo prega, como também as suas filosofias encontraram
eventos consistentes.
E esses casos estão chamando tanto a atenção da
ciência como a atenção das faculdades, esta encontra teses de mestrados e
doutorados envolvendo o budismo de forma direta ou indireta.
Podemos
citar, como exemplo, a tese O DESPERTAR DO BUDISMO NO OCIDENTE NO SÉCULO XXI, de
Maria Theresa da Costa Barros, apresentada ao Instituto de Medicina Social da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro para a obtenção do título de Doutor em
Saúde Coletiva.
Com este conceito do "budismo moderno" como diz alguns
estudiosos, das observações empíricas que sustentam os conceitos budistas sobre
a mente como a meditação e outros casos interessantes, fará do budismo mais uma
opção psicoterapêutica, ou ela poderá se “acoplar” como complemento ou parceira
de uma linha psicológica, como a psicologia transpessoal, por exemplo?
Jan:
A este respeito, eu recomendaria a leitura de dois
livros: - Liberdade Pessoal - Dr. Arthur Deikman - Psicoterapia
ocidental e oriental - Alan W. Watts
Faz sentido tudo isto que você
falou.
Marcelo:
O que você acha da psicologia
transpessoal?
Jan:
Bem, deixe-me arriscar, pois não estou
lembrado bem. É a psicologia de Carl Rogers?
Marcelo:
A
psicologia transpessoal abarca conteúdos de muitas escolas psicológicas, como as
teorias de Carl G. Jung, Maslow, Viktor Frankl, Fritjof Capra, Ken Wilber e
Stanislav Grof.
A psicologia transpessoal é uma abordagem da Psicologia,
considerada por Abraham Maslow (1908-1970) como a "quarta força", sendo a
primeira força o comportamentismo, seguida da Psicanálise, e do Humanismo.
A psicologia transpessoal tem entre seus objetos de trabalho e pesquisa
os estados não ordinários de consciência que abrangem das experiências com
alucinógenos (Grof, Huxley) aos estados místicos das tradições religiosas
mundiais. Ken Wilber, um dos seus principais teóricos, em O Espectro da
Consciência, primeiro de dúzias de livros, propõe uma cartografia do ser que
abrange do físico ao psíquico e deste ao espírito. Assim, a psicologia
transpessoal abrange o ego, como as demais escolas de psicologia, e os estados
além do ego (trans pessoal). No Brasil a psicoterapia transpessoal encontrou
ressonância com a tradição espírita (muitos destes são simpatizantes desta
abordagem terapêutica) e os fenômenos ditos mediúnicos passaram a ser estudados
no contexto dos estados alterados de consciência.
Jan:
Agora eu consegui me situar sim. Bem, de fato, eu penso que devemos sim
dar uma olhada no legado das antigas civilizações, para que possamos andar para
frente com um rumo certo. Por exemplo, não podemos nos arrogar o status de
criadores ou descobridores da hipnose, pois os egípcios e outros povos antigos
já a conheciam e praticavam. Creio que há muito mais a aprender com estas
civilizações.
Marcelo:
O que você acha de psicanalistas
ou psicólogos realizar paralelos dos seus tratamentos com as terapias
complementares que é um sistema de terapias naturais, utilizadas simultaneamente
aos tratamentos clássicos de saúde, tornando holístico na acepção da palavra?
Jan:
Eu não acho nada. No que me diz respeito, procuro
não fazer uma salada com a terapia. Se a técnica que aprendi não funciona,
abandono e procuro outra.
Marcelo:
É fundamental
salientarmos que das diversas técnicas complementares conhecidas, algumas já são
aprovadas pelo Conselho Federal de Psicologia...
Segundo o National
Center for Complementary and Alternative Medicine (NCCAM) do National Institute
of Health dos EUA as terapias complementares são utilizadas em combinação com as
práticas convencionais por diferentes motivos...
Diversos centros
clínicos e de pesquisa ao redor do mundo adotam as principais Terapias
Complementares como parte do tratamento aos seus pacientes, destacando os
principais: Mind-Body Medical Institute of New Enlgand Deaconess Hospital and
Harvard Medical School, Integrative Medicine of Arizona University, Center for
Integrative Medicine of University Pittsburgh, Mayo Clinic, Center for
Mindfullness University of Massachussets, entre outros. Também destacamos: Seção
de Medicina Tradicional da Organização Mundial da Saúde, National Center for
Complementary and Alternative Medicine (NCCAM) do National Institute of Health
dos EUA, Cochrane Colaboration e etc. No Brasil, destacamos o pioneirismo da
Unidade de Medicina Comportamental do departamento de Psicobiologia da
Universidade Federal de São Paulo, sob coordenação do psicólogo Prof. Dr. José
Roberto Leite. No Setor de Psicologia da Saúde do Instituto Neurológico do
Hospital Beneficência Portuguesa de São Paulo, em 2002, o psicólogo Prof.
Armando Ribeiro das Neves Neto implantou um atendimento baseado em Terapia
Comportamental Cognitiva e terapias complementares, sendo estas: acupuntura,
biofeedback, hipnose e meditação, para os principais quadros psiquiátricos e
doenças neurológicas...
Diversos pesquisadores investigam a relação
entre o custo versus benefício das principais Terapias Complementares que já
demonstraram eficácia e segurança. Herman et al. (2005) encontraram algumas
situações em que as terapias complementares são mais baratas e tão eficientes
quanto os procedimentos convencionais, entre eles destacam-se: acupuntura para
migranea, terapia manual para dor cervical, gerenciamento do estresse para
pacientes com câncer submetidos à quimioterapia, biofeedback para o tratamento
de doenças funcionais (ex. síndrome do intestino irritável), imaginação guiada e
dieta para pacientes cardíacos, entre outros.
No Brasil o Ministério da
Saúde cria a Portaria Nº 971 (03/05/2006) sobre a Política Nacional de Práticas
Integrativas e Complementares no Sistema Único de Saúde (SUS) que legitima o
papel das Terapias Complementares no tratamento da saúde, baseando-se
principalmente em relatórios da Organização Mundial da Saúde sobre a Importância
destas práticas nos países membros. Inicialmente a portaria 971 enfatiza o uso:
Medicina Tradicional Chinesa / Acupuntura, Homeopatia, Plantas Medicinais e
Fitoterapia, Termalismo e Crioterapia.
É fundamental salientarmos que
das diversas técnicas complementares conhecidas, algumas já são aprovadas pelo
Conselho Federal de Psicologia (CFP) como a Hipnose (Resolução Nº 013/2000) e a
Acupuntura (Resolução Nº 005/2002), sendo que outras técnicas são reconhecidas
por centros internacionais de pesquisa e assistência, universidades, fazendo
parte de protocolos de pesquisa científica, como: biofeedback, exercícios de
respiração, técnicas expressivas, arte-terapia, terapias corporais, imaginação
guiada, meditação, relaxamento muscular progressivo, relaxamento autógeno, entre
muitas outras. O CFP também orienta com relação à pesquisa de novas práticas
terapêuticas, através do Fórum de Práticas Alternativas, realizado em Brasília
no período de 27 a 29 de junho de 1997 (Resolução Nº 011/1997). (Dados do
psicólogo e pesquisador Armando Ribeiro).
O que acha?
Jan:
Bem, Marcelo, meu procedimento é o seguinte: se
julgo que um paciente vá se sair melhor com acupuntura, eu o encaminho para o
profissional desta área e assim por diante. A hipnose eu uso por ser uma técnica
do âmbito da Psicologia, embora não faça da mesma o meu principal trunfo. Apenas
não misturo as coisas. Psicologia é uma coisa, terapias alternativas são outras
coisas.
Marcelo:
Certo, entendi, essa é a sua ética
profissional e respeito, claro. Mas, eu não disse a nenhum momento que são tudo
a mesma coisa, óbvio.
Contudo minha pergunta, para ser mais especifico,
é a seguinte: você acha que a terapia complementar aceita pelo governo e várias
organizações de saúde, como citei anteriormente, são erradas? Você acha que não
é válida ou é só uma questão de opção?
Jan:
Ora, Marcelo,
a hipnose não é uma terapia alternativa. A meditação tem valor terapêutico, mas
está longe de ser uma terapia em si. O restante, dentro da concepção original
que prevê corpo e mente como uma unidade, são válidos, mas não se constituem
numa terapia psicológica. Quem quer usar, use, se achar que funciona. Para
algumas vertentes semi-religiosas da Psicologia, utilizar estas terapias é uma
confissão de falência do seu método. No nosso caso, não temos problemas com
isso. Como lhe falei, encaminhamos e encerramos o assunto.
Marcelo:
Entendi. Se for preciso você encaminha. Tudo
bem.
Encerramos o assunto ou também não realizo mais perguntas com outro
foco?
Jan:
Desculpe-me, Marcelo, mas eu sou rabugento
assim mesmo. Não sei se estou de todo errado. Veja um exemplo: Há um tempo atrás
os administradores estavam reivindicando a não contratação de psicólogos para a
seleção de pessoal nas empresas alegando que eles mesmos podiam fazer isto. É
misturar os campos, concorda? Seleção de pessoal é com psicólogos sim. Não se me
fiz entender. Apenas procuro não misturar os campos.
Marcelo:
Entendo. Só espero que não fique chateado, pois quero tirar minhas
dúvidas. Isso é um estudo, de certa forma.
E lembre-se que a ciência
vive de criticas para evoluir, comodismo e aceitação são para as religiões não
é? Desculpa qualquer coisa.
Mas então, sobre o exemplo que você deu está
certo. Só que eu disse foi o seguinte: remédios homeopáticos, por exemplo, já
são provados os seus benefícios, certo? Dentre eles, existem remédios para
ansiedade, por exemplo. Por algum motivo o paciente está muito ansioso, querendo
entrar em um quadro de stress, quem sabe depressão ou suicídio? Seria então
natural ele ir para o psiquiatra para tomar certo remédio e dar um alívio nos
sintomas. Mas, como a cura não realizou, já que é um conflito psicológico nesse
caso, se o paciente interromper com o remédio, ele volta para depressão.
Então o que ocorre? O psiquiatra recomenda o remédio anti-depressivo e
alivia de imediato os sintomas do paciente, enquanto um psicanalista vai
tratando da causa desse sintoma, dessa "doença". O psiquiatra então, vai vendo
os resultados e diminuindo os remédios até parar de vez com os medicamentos que
ele solicitou. Como você, sendo psicólogo ou psicanalista, já vinha tratando do
estado mental do paciente, ele não fica mais dependente do remédio, seria uma
parceria do psicólogo e do psiquiatra, em certos casos.
Mas há pessoas
que não tem condições para obter remédios caros e dependendo do doente (análise
médico), a homeopatia substitui esse remédio e a parceria continua.
Não
é que o psicólogo foi substituído pela a terapia alternativa e sim que cada um
fez o seu papel. Já pensou se o paciente está no grau de suicídio alto, é a
primeira consulta dele e amanhã ele se mata? Em uma consulta não se resolve
tudo, não generalizando, claro.
Entende-me como funciona? Só foi um
exemplo.
Jan:
Entendi, Marcelo. É exatamente isto. Muitas
e muitas vezes, uma paciente precisa de medicação, e esta só pode ser prescrita
pelo psiquiatra, donde formamos uma parceria, e na medida em que o paciente
tiver alguma melhora, o psiquiatra irá avaliá-lo e decidir por diminuir a dose,
se for o caso, ao mesmo tempo em que trocamos impressões sobre o caso. O
tratamento psicológico de modo algum dispensa o tratamento psiquiátrico em
alguns casos.
Marcelo:
Jan, então é isso que eu discorria
da terapia alternativa também, em certos casos.
Pois além de ter um
custo mais baixo que os remédios convencionais, tem menos ou nenhum efeito
colateral, ok?
Além disso, as terapias complementares são utilizadas em
combinação com as práticas convencionais por diferentes motivos, sendo: (b)
desejo de experimentar técnicas complementares, (c) quando as técnicas
convencionais não ajudaram, (d) por indicação de profissional da saúde
convencional, (e) altos custos do tratamento convencional. Ainda conforme o
relatório do NCCAM as condições de saúde que mais estão associadas ao uso das
técnicas complementares são: dor crônica, artrite reumatóide, ansiedade,
depressão, queixas gástricas, cefaléias e insônia.
Então você não
estaria desvalorizando o seu trabalho e sim fazendo o mesmo processo que você
faz com os psiquiatras, entende?
Jan:
Veja bem, Marcelo.
Se há a necessidade de uma terapia complementar, isto pode ser sinal de que a
minha forma de terapia não está sendo eficaz para aquele caso específico,
concorda? No caso da Homeopatia, ainda vale a questão da parceria. Há casos que
são bem mais complexos do que estes. Algumas vezes, trabalho em conjunto com um
clínico geral, um endocrinologista e um nutricionista. Não há problema algum em
trabalhar em conjunto com outros profissionais. Só devemos respeitar a área de
atuação de cada um.
Marcelo:
Jan, se há a necessidade de
um psiquiatra, isto pode ser sinal de que a minha forma de terapia não está
sendo eficaz para aquele caso específico, concorda também?
Não
refutei médicos, claro. Mas, pesquise e veja resultados sérios, são científicos,
veja os dados acima que falei, pois a terapia funciona. A ciência mesmo aprova e
planos de saúde já cobrem isso, governos também, SUS...
Tem pessoas
curadas com acupuntura, por exemplo. Meu irmão curou-se de uma tendinite, na
mão, com a acupuntura. O superintendente da caixa, amigo da família, curou a sua
dor de cabeça com acupuntura... Eu ficava muito ansioso por causa do vestibular
de medicina e a homeopatia resolveu isso... Além disso, os efeitos já são
provados.
Jan:
Mas desde quando tendinite e dor de cabeça
são da alçada do psicólogo?
Marcelo:
Jan, eu não disse
que dores de cabeça são da alçada do psicólogo, apesar de que houve uma
entrevista no programa do Jô Soares, TV Globo, com o hipnólogo René Weigher
curando enxaquecas, o que eu quis falar realmente é que a terapia alternativa
funciona e é provado pela ciência.
Não misture com curandeiro e essas
coisas místicas! (risos)
A psicoterapia e a terapia complementar são
trabalhos diferenciados, mas quando em parceria comumente estabelecem uma
inovação para pacientes e profissionais envolvidos nessa relação terapêutica.
Essa parceria consciente tem um único intuito: a promoção da qualidade de saúde
mental que é fruto de trabalho proveitoso para o paciente e à sua família.
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