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Curso de TVP janeiro 2010

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ARTIGOS

Debate: A Psicanálise e as terapias complementares

Debate: A Psicanálise e as terapias complementares

 Neste artigo, será explanado o debate entre Marcelo Vinícius (estudante de psicanálise, estudioso da filosofia orientalista e tecnólogo) e Jan Robba (psicólogo clínico da linha comunicacional).

As obras da psicanálise e o emprego de terapias alternativas focam o desenvolvimento dos humanos nos feitos emocionais, pessoais e sociais melhorando a auto-estima e o direito de conviver com qualidade.

É preciso salientar que não é qualquer terapia alternativa que é válida e sim aquela analisada e testada cientificamente. A psicanálise não é substituída pela terapia alternativa, há apenas uma parceria, como ocorre com o psicanalista e o psiquiatra.


DEBATE:

Marcelo:

Jan, o que acha da psicologia transpessoal? E do budismo?

Claro que sabemos que o budismo não é uma ciência. Mas, nas últimas décadas ele tem sido também alvo do interesse de certos ramos de ponta da ciência, em especial do campo das neurociências, interessadas em explorar a enorme riqueza de observações empíricas que sustentam os conceitos budistas sobre a mente.

Os benefícios da Meditação foram provados cientificamente. Estudos americanos, feitos pela Universidade de Oregon, nos Estados Unidos, confirmam os benefícios da meditação. O estudo mostrou que cerca de 20 minutos por dia já basta para reduzir a ansiedade, diminuir os níveis de cortisol – hormônio responsável pelo estresse – e melhora a concentração. Mas a meditação ainda continua sendo um mistério.

Experiências com Budistas em meditação mostram que, no ápice da jornada meditativa, ocorre redução drástica de seu campo de orientação. A suposição é que essa região cerebral se faz temporariamente "cega" para os dados provenientes dos sentidos - o que explicaria sua sensação de ligação indissolúvel à totalidade da Criação.

Há psiquiatras que estão recomendando a meditação, como efeitos terapêuticos, para os seus pacientes.

O médico e psicólogo Paulo Castro da CEP-SEARA diz que a meditação “a baixa a pressão arterial, diminui o ritmo cardíaco e lida com o” stress “.

Jan:
Caro Marcelo,

Desde bem garoto eu já tinha uma admiração muito grande pelo budismo tibetano e pelo Kung fu. Com relação à meditação, eu diria que, bem feita, conduz o praticante a um estado semelhante ao que se experimenta na hipnose. De fato, o que se afirma com relação à meditação é verdadeiro. Há, porém muita coisa no mercado que se faz passar por meditação e não é. É necessário então saber distinguir uma coisa de outra. O budismo é uma forma muito avançada de religião.

Marcelo:

Alguns ramos da psicologia moderna, neurociência e até algumas importâncias da física quântica estão descobrindo observações empíricas que sustentam os conceitos budistas sobre a mente. Não só a "psicologia" que o budismo prega, como também as suas filosofias encontraram eventos consistentes.

E esses casos estão chamando tanto a atenção da ciência como a atenção das faculdades, esta encontra teses de mestrados e doutorados envolvendo o budismo de forma direta ou indireta.

Podemos citar, como exemplo, a tese O DESPERTAR DO BUDISMO NO OCIDENTE NO SÉCULO XXI, de Maria Theresa da Costa Barros, apresentada ao Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro para a obtenção do título de Doutor em Saúde Coletiva.

Com este conceito do "budismo moderno" como diz alguns estudiosos, das observações empíricas que sustentam os conceitos budistas sobre a mente como a meditação e outros casos interessantes, fará do budismo mais uma opção psicoterapêutica, ou ela poderá se “acoplar” como complemento ou parceira de uma linha psicológica, como a psicologia transpessoal, por exemplo?

Jan:

A este respeito, eu recomendaria a leitura de dois livros:
- Liberdade Pessoal - Dr. Arthur Deikman
- Psicoterapia ocidental e oriental - Alan W. Watts

Faz sentido tudo isto que você falou.

Marcelo:

O que você acha da psicologia transpessoal?

Jan:

Bem, deixe-me arriscar, pois não estou lembrado bem. É a psicologia de Carl Rogers?

Marcelo:

A psicologia transpessoal abarca conteúdos de muitas escolas psicológicas, como as teorias de Carl G. Jung, Maslow, Viktor Frankl, Fritjof Capra, Ken Wilber e Stanislav Grof.

A psicologia transpessoal é uma abordagem da Psicologia, considerada por Abraham Maslow (1908-1970) como a "quarta força", sendo a primeira força o comportamentismo, seguida da Psicanálise, e do Humanismo.

A psicologia transpessoal tem entre seus objetos de trabalho e pesquisa os estados não ordinários de consciência que abrangem das experiências com alucinógenos (Grof, Huxley) aos estados místicos das tradições religiosas mundiais. Ken Wilber, um dos seus principais teóricos, em O Espectro da Consciência, primeiro de dúzias de livros, propõe uma cartografia do ser que abrange do físico ao psíquico e deste ao espírito. Assim, a psicologia transpessoal abrange o ego, como as demais escolas de psicologia, e os estados além do ego (trans pessoal). No Brasil a psicoterapia transpessoal encontrou ressonância com a tradição espírita (muitos destes são simpatizantes desta abordagem terapêutica) e os fenômenos ditos mediúnicos passaram a ser estudados no contexto dos estados alterados de consciência.

Jan:

Agora eu consegui me situar sim. Bem, de fato, eu penso que devemos sim dar uma olhada no legado das antigas civilizações, para que possamos andar para frente com um rumo certo. Por exemplo, não podemos nos arrogar o status de criadores ou descobridores da hipnose, pois os egípcios e outros povos antigos já a conheciam e praticavam. Creio que há muito mais a aprender com estas civilizações.

Marcelo:

O que você acha de psicanalistas ou psicólogos realizar paralelos dos seus tratamentos com as terapias complementares que é um sistema de terapias naturais, utilizadas simultaneamente aos tratamentos clássicos de saúde, tornando holístico na acepção da palavra?

Jan:

Eu não acho nada. No que me diz respeito, procuro não fazer uma salada com a terapia. Se a técnica que aprendi não funciona, abandono e procuro outra.

Marcelo:

É fundamental salientarmos que das diversas técnicas complementares conhecidas, algumas já são aprovadas pelo Conselho Federal de Psicologia...

Segundo o National Center for Complementary and Alternative Medicine (NCCAM) do National Institute of Health dos EUA as terapias complementares são utilizadas em combinação com as práticas convencionais por diferentes motivos...

Diversos centros clínicos e de pesquisa ao redor do mundo adotam as principais Terapias Complementares como parte do tratamento aos seus pacientes, destacando os principais: Mind-Body Medical Institute of New Enlgand Deaconess Hospital and Harvard Medical School, Integrative Medicine of Arizona University, Center for Integrative Medicine of University Pittsburgh, Mayo Clinic, Center for Mindfullness University of Massachussets, entre outros. Também destacamos: Seção de Medicina Tradicional da Organização Mundial da Saúde, National Center for Complementary and Alternative Medicine (NCCAM) do National Institute of Health dos EUA, Cochrane Colaboration e etc. No Brasil, destacamos o pioneirismo da Unidade de Medicina Comportamental do departamento de Psicobiologia da Universidade Federal de São Paulo, sob coordenação do psicólogo Prof. Dr. José Roberto Leite. No Setor de Psicologia da Saúde do Instituto Neurológico do Hospital Beneficência Portuguesa de São Paulo, em 2002, o psicólogo Prof. Armando Ribeiro das Neves Neto implantou um atendimento baseado em Terapia Comportamental Cognitiva e terapias complementares, sendo estas: acupuntura, biofeedback, hipnose e meditação, para os principais quadros psiquiátricos e doenças neurológicas...

Diversos pesquisadores investigam a relação entre o custo versus benefício das principais Terapias Complementares que já demonstraram eficácia e segurança. Herman et al. (2005) encontraram algumas situações em que as terapias complementares são mais baratas e tão eficientes quanto os procedimentos convencionais, entre eles destacam-se: acupuntura para migranea, terapia manual para dor cervical, gerenciamento do estresse para pacientes com câncer submetidos à quimioterapia, biofeedback para o tratamento de doenças funcionais (ex. síndrome do intestino irritável), imaginação guiada e dieta para pacientes cardíacos, entre outros.

No Brasil o Ministério da Saúde cria a Portaria Nº 971 (03/05/2006) sobre a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares no Sistema Único de Saúde (SUS) que legitima o papel das Terapias Complementares no tratamento da saúde, baseando-se principalmente em relatórios da Organização Mundial da Saúde sobre a Importância destas práticas nos países membros. Inicialmente a portaria 971 enfatiza o uso: Medicina Tradicional Chinesa / Acupuntura, Homeopatia, Plantas Medicinais e Fitoterapia, Termalismo e Crioterapia.

É fundamental salientarmos que das diversas técnicas complementares conhecidas, algumas já são aprovadas pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP) como a Hipnose (Resolução Nº 013/2000) e a Acupuntura (Resolução Nº 005/2002), sendo que outras técnicas são reconhecidas por centros internacionais de pesquisa e assistência, universidades, fazendo parte de protocolos de pesquisa científica, como: biofeedback, exercícios de respiração, técnicas expressivas, arte-terapia, terapias corporais, imaginação guiada, meditação, relaxamento muscular progressivo, relaxamento autógeno, entre muitas outras. O CFP também orienta com relação à pesquisa de novas práticas terapêuticas, através do Fórum de Práticas Alternativas, realizado em Brasília no período de 27 a 29 de junho de 1997 (Resolução Nº 011/1997). (Dados do psicólogo e pesquisador Armando Ribeiro).

O que acha?

Jan:

Bem, Marcelo, meu procedimento é o seguinte: se julgo que um paciente vá se sair melhor com acupuntura, eu o encaminho para o profissional desta área e assim por diante. A hipnose eu uso por ser uma técnica do âmbito da Psicologia, embora não faça da mesma o meu principal trunfo. Apenas não misturo as coisas. Psicologia é uma coisa, terapias alternativas são outras coisas.

Marcelo:

Certo, entendi, essa é a sua ética profissional e respeito, claro. Mas, eu não disse a nenhum momento que são tudo a mesma coisa, óbvio.

Contudo minha pergunta, para ser mais especifico, é a seguinte: você acha que a terapia complementar aceita pelo governo e várias organizações de saúde, como citei anteriormente, são erradas? Você acha que não é válida ou é só uma questão de opção?

Jan:

Ora, Marcelo, a hipnose não é uma terapia alternativa. A meditação tem valor terapêutico, mas está longe de ser uma terapia em si. O restante, dentro da concepção original que prevê corpo e mente como uma unidade, são válidos, mas não se constituem numa terapia psicológica. Quem quer usar, use, se achar que funciona. Para algumas vertentes semi-religiosas da Psicologia, utilizar estas terapias é uma confissão de falência do seu método. No nosso caso, não temos problemas com isso. Como lhe falei, encaminhamos e encerramos o assunto.

Marcelo:

Entendi. Se for preciso você encaminha. Tudo bem.

Encerramos o assunto ou também não realizo mais perguntas com outro foco?

Jan:

Desculpe-me, Marcelo, mas eu sou rabugento assim mesmo. Não sei se estou de todo errado. Veja um exemplo: Há um tempo atrás os administradores estavam reivindicando a não contratação de psicólogos para a seleção de pessoal nas empresas alegando que eles mesmos podiam fazer isto. É misturar os campos, concorda? Seleção de pessoal é com psicólogos sim. Não se me fiz entender. Apenas procuro não misturar os campos.

Marcelo:

Entendo. Só espero que não fique chateado, pois quero tirar minhas dúvidas. Isso é um estudo, de certa forma.

E lembre-se que a ciência vive de criticas para evoluir, comodismo e aceitação são para as religiões não é? Desculpa qualquer coisa.

Mas então, sobre o exemplo que você deu está certo. Só que eu disse foi o seguinte: remédios homeopáticos, por exemplo, já são provados os seus benefícios, certo? Dentre eles, existem remédios para ansiedade, por exemplo. Por algum motivo o paciente está muito ansioso, querendo entrar em um quadro de stress, quem sabe depressão ou suicídio? Seria então natural ele ir para o psiquiatra para tomar certo remédio e dar um alívio nos sintomas. Mas, como a cura não realizou, já que é um conflito psicológico nesse caso, se o paciente interromper com o remédio, ele volta para depressão.

Então o que ocorre? O psiquiatra recomenda o remédio anti-depressivo e alivia de imediato os sintomas do paciente, enquanto um psicanalista vai tratando da causa desse sintoma, dessa "doença". O psiquiatra então, vai vendo os resultados e diminuindo os remédios até parar de vez com os medicamentos que ele solicitou. Como você, sendo psicólogo ou psicanalista, já vinha tratando do estado mental do paciente, ele não fica mais dependente do remédio, seria uma parceria do psicólogo e do psiquiatra, em certos casos.

Mas há pessoas que não tem condições para obter remédios caros e dependendo do doente (análise médico), a homeopatia substitui esse remédio e a parceria continua.

Não é que o psicólogo foi substituído pela a terapia alternativa e sim que cada um fez o seu papel. Já pensou se o paciente está no grau de suicídio alto, é a primeira consulta dele e amanhã ele se mata? Em uma consulta não se resolve tudo, não generalizando, claro.

Entende-me como funciona? Só foi um exemplo.

Jan:

Entendi, Marcelo. É exatamente isto. Muitas e muitas vezes, uma paciente precisa de medicação, e esta só pode ser prescrita pelo psiquiatra, donde formamos uma parceria, e na medida em que o paciente tiver alguma melhora, o psiquiatra irá avaliá-lo e decidir por diminuir a dose, se for o caso, ao mesmo tempo em que trocamos impressões sobre o caso. O tratamento psicológico de modo algum dispensa o tratamento psiquiátrico em alguns casos.

Marcelo:

Jan, então é isso que eu discorria da terapia alternativa também, em certos casos.

Pois além de ter um custo mais baixo que os remédios convencionais, tem menos ou nenhum efeito colateral, ok?

Além disso, as terapias complementares são utilizadas em combinação com as práticas convencionais por diferentes motivos, sendo: (b) desejo de experimentar técnicas complementares, (c) quando as técnicas convencionais não ajudaram, (d) por indicação de profissional da saúde convencional, (e) altos custos do tratamento convencional. Ainda conforme o relatório do NCCAM as condições de saúde que mais estão associadas ao uso das técnicas complementares são: dor crônica, artrite reumatóide, ansiedade, depressão, queixas gástricas, cefaléias e insônia.

Então você não estaria desvalorizando o seu trabalho e sim fazendo o mesmo processo que você faz com os psiquiatras, entende?

Jan:

Veja bem, Marcelo. Se há a necessidade de uma terapia complementar, isto pode ser sinal de que a minha forma de terapia não está sendo eficaz para aquele caso específico, concorda? No caso da Homeopatia, ainda vale a questão da parceria. Há casos que são bem mais complexos do que estes. Algumas vezes, trabalho em conjunto com um clínico geral, um endocrinologista e um nutricionista. Não há problema algum em trabalhar em conjunto com outros profissionais. Só devemos respeitar a área de atuação de cada um.

Marcelo:

Jan, se há a necessidade de um psiquiatra, isto pode ser sinal de que a minha forma de terapia não está sendo eficaz para aquele caso específico, concorda também?


Não refutei médicos, claro. Mas, pesquise e veja resultados sérios, são científicos, veja os dados acima que falei, pois a terapia funciona. A ciência mesmo aprova e planos de saúde já cobrem isso, governos também, SUS...

Tem pessoas curadas com acupuntura, por exemplo. Meu irmão curou-se de uma tendinite, na mão, com a acupuntura. O superintendente da caixa, amigo da família, curou a sua dor de cabeça com acupuntura... Eu ficava muito ansioso por causa do vestibular de medicina e a homeopatia resolveu isso... Além disso, os efeitos já são provados.

Jan:

Mas desde quando tendinite e dor de cabeça são da alçada do psicólogo?

Marcelo:

Jan, eu não disse que dores de cabeça são da alçada do psicólogo, apesar de que houve uma entrevista no programa do Jô Soares, TV Globo, com o hipnólogo René Weigher curando enxaquecas, o que eu quis falar realmente é que a terapia alternativa funciona e é provado pela ciência.

Não misture com curandeiro e essas coisas místicas! (risos)

A psicoterapia e a terapia complementar são trabalhos diferenciados, mas quando em parceria comumente estabelecem uma inovação para pacientes e profissionais envolvidos nessa relação terapêutica. Essa parceria consciente tem um único intuito: a promoção da qualidade de saúde mental que é fruto de trabalho proveitoso para o paciente e à sua família.

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