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A psicologia cognitiva também traz à tona processos inconscientes?
A psicologia cognitiva também traz à tona processos inconscientes?
Por: Marcelo Vinicius
Com o decorrer da ciência, muitos eventos e conceitos modificam-se. É o caso da psicologia cognitiva que parece adquirir alguns conceitos psicanalíticos, como o inconsciente e a fase primária. Pois é, para poder explicar o famoso evento psicológico conhecido como Déjá-vu, que é a impressão que temos, de repente, de já ter vivido algo, e a sensação, quase sempre, de estranhamento; neurologistas e psicólogos tentam compreender esse misterioso fenômeno de percepção temporal com o conceito do inconsciente.
Uwe Wolfradt, professor do Instituto de Psicologia da Universidade Martin, em Halle-Wittemberg, e pesquisador do tema Déjá-vu, coordenou uma pesquisa na qual foram entrevistados 220 estudantes da universidade Halle-Wittemberg e constatou que aproximadamente 80% disseram acreditar que, durante um déjá-vu, provavelmente estavam lembrando inconscientemente de um acontecimento do qual se haviam esquecido.
Essa noção lembra a idéia de Sigmund Freud de que déjá-vus resultam do desejo de recapitular eventos reprimidos e elaborá-los, ou seja, aparecem como um mecanismo de defesa contra experiências traumáticas. A psicologia cognitiva também traz à tona processos inconscientes, processos de memória implícita (ou não declarativa), para explicar o dèjá-vu. Essa teoria ressalta que podemos ter a sensação de que uma pessoa, um local, um objeto ou um acontecimento nos são familiares, mesmo quando já experimentamos apenas um aspecto determinado deles, como um odor característico, em outro contexto.
“Suponhamos que você veja um velho armário em uma feira de usados e, de repente, toda a situação lhe pareça conhecida, mas você já não se lembra de uma coisa: quando era criança, havia um armário muito parecido na casa dos seus avós”, exemplifica Wolfradt. Esse elemento unitário esquecido, no caso do exemplo, o armário, desencadeia uma sensação mais ampla de familiaridade, que é transferida para toda a “composição”.
Por fim, algumas suposições também se baseiam no processamento inconsciente de informações, afirmando que falhas de atenção seriam as responsáveis pelo dèjá-vu. Num estudo desenvolvido na universidade Halle-Wittemberg, mostrou que 46% dos estudantes se lembravam de estar mais tranqüilos na ocasião do fenômeno; cerca de um terço chegou mesmo a descrever seu estado de espírito como alegre. Provavelmente, o dèjá-vu não é desencadeado imediatamente no momento da tensão, quando permanecemos extremamente atentos, mas depois, quando estamos cansados e relaxamos.
Porém, também, são plausíveis outras circunstâncias nas quais nós, por um curto período, não percebemos mais nosso entorno consciente. “Um de nossos estudos com mais de 300 universitários mostrou, por exemplo, que dèjá-vus estão fortemente relacionados à capacidade de mergulhar em fantasias e na imaginação. Hoje os dèjá-vus estão incluídos entre distúrbios de memória, mas nada indica que pessoas que os experimentam com freqüência sofram de algum distúrbio”, afirma Wolfradt.
Além disto, existe uma pesquisa da própria psicologia em que os resultados também sugerem que o fenômeno pode ser provocado de forma independente, sem que haja memória real para acioná-la. Não havendo memória real, é um processo ilusório, fantasioso, e que a psicanálise, para explicar o dèjá-vu, também considera esse conceito da psicologia como algo que poder ser um falso reconhecimento.
Lembranças e falsas lembranças. O "déjà vu" também podem surgir quando o fato vivido ou imaginado causou maior impacto afetivo. Além disso, com a repressão (recalque) emocional de um fato traumático vivido ou fantasiado, a rememoração mostra que a pessoa não tinha qualquer consciência de sua existência.
A realidade de um sujeito, para a psicanálise, estar construída a partir de experiências vividas e envoltas de fantasias. Contudo, todos os outros estudos da psicologia sobre o Dèjá-vu enfatizam a necessidade da existência de lembranças anteriores que pudessem ser “revividas”. Neste caso, a psicanálise também explica o caso e concorda ainda com este outro conceito da psicologia.
Quantas vezes não temos a sensação de déjà-vu e não nos damos conta de que aquilo é uma lembrança? Como a psicologia, a psicanálise também considera esta sensação como resultado de um processo inconsciente. Esse conceito de processos inconsciente para explicar o dèjá-vu, o que a psicologia atualmente estar fazendo, já tinha sido explicado pela psicanálise há 150 anos.
Em termo psicanalítico, poderíamos estar sendo atraídos, via inconsciente, por situações onde repetimos padrões, ou talvez fazermos uma leitura particularmente intensa de situações bem cotidianas, quando elas nos evocam padrões inconscientes.
Assim, dentre milhões de imagens cotidianas, números vistos, pessoas, objetos, assimiladas e deletadas sem maior significado aparente, o inconsciente escolheria justamente aquelas com as quais fizesse associações, como o exemplo dado pela psicologia a relacionar o armário em uma feira de usados com a situação de quando era criança, onde havia um armário muito parecido na casa dos avós do personagem que viveu o dèjá-vu.
Assim, neste caso, o objeto que foi usado para criar uma associação inconsciente, foi o armário, dando uma falsa impressão de coincidência, quando o que pode estar sendo repetido é, no máximo, um padrão do observador. Como virmos, tanto a psicologia como a psicanálise, enfatizam também a necessidade da existência de lembranças anteriores que pudessem ser “revividas” de forma inconsciente.
Conclusão. Verdadeiras lembranças e falsas lembranças. Tanto uma pesquisa da psicologia, que enfatiza que o Dèjá-vu pode ser provocado de forma independente, sem que haja memória real para acioná-la, quanto às outras pesquisas da psicologia, que ressaltam a necessidade da existência de lembranças anteriores que pudessem ser “revividas” de forma inconsciente, estão de acordo com os estudos da psicanálise, já que os estudos psicanalíticos consideram o dèjá-vu tanto como o fato vivido como algo imaginado que causou um impacto afetivo.
Onde há uma certa divergência nos estudos da psicologia a respeito do Dèjá-vu, encontrando um conceito que considera o fenômeno como falta da memória real (fantasias, imaginação) contrapondo outro conceito da psicologia que ressalta a necessidade da existência de lembranças anteriores (fato vivido), a psicanálise encontra uma convergência, uma união, afirmando, como virmos, que o fato vivido como também imaginado pode gerar o Dèjá-vu.
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