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Curso de TVP janeiro 2010

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ARTIGOS

A PSICANÁLISE DO FUTURO

A PSICANÁLISE DO FUTURO

Por: Marcelo Vinicius

Assim, como qualquer corpo de conhecimento, a Psicanálise deve evoluir. Seja a Ciência, a Filosofia e também a Psicanálise estão sempre passíveis de evolução. Na verdade, é essencial que se evolua no tempo. Desta forma, os psicanalistas, como também cientistas e filósofos precisam estar atualizados.

Os psicanalistas, por sua vez, precisam estar antenados não só com os conceitos da Psicanálise na época de Freud, mas também com os conceitos da Psicanálise atual, como a Psicanálise Nova que é a prática freudiana atuante no ambiente psicotecnológico do século 21, a Psicanálise Integrativa que como significa a própria etimologia da palavra integrativa, procura uma junção de todos os autores neos e pós freudianos, criando um corpo psicanalítico onde houverem congruências, e uma ampla discussão onde houverem divergências, na tentativa da criação de um novo saber, e o grande advento do método neuropsicanalítico, que abordaremos depois.

Hoje, já se sabe, quem é informado, que a Neurociência cada vez mais se chega à Psicanálise. Há estudos e pesquisas da neurociência sobre a mente, que contribui com os estudos da psicanálise como um todo, em suas diversas abordagens. Podemos ver cada vez mais a afirmação da psicanálise e as notícias promissoras para os estudos e pesquisas sobre a mente e sua complexidade.

A proximidade entre a psicanálise e a neurociência não é novidade. A psicanálise é filha da neurologia, à parte da medicina preocupada com o cérebro. Assim, a decisão de Freud, que era médico neurologista, de confinar suas investigações à arena mental ocorreu somente depois que ele desistiu de traduzir as observações clínicas dos processos mentais em termos neurológicos, convencido de que as ferramentas da época não permitiam tal realização.

Mas, atualmente a neurociência já produz evidências no campo da psicoterapia em geral. Os dados emergentes dos estudos neurocientíficos revelam que as funções cognitivas, emocionais, perceptuais, e comportamentais são mediadas por circuitos cerebrais, e que a não-integridade destes pode estar associado a alguns distúrbios mentais. A plasticidade cerebral, fenômeno diretamente ligado ao aprendizado e a memória, pode modificar, compensar e ajustar funções neurais fundamentais à capacidade adaptativa. Estudos recentes revelam que a natureza subjetiva e a volição dos processos mentais, como pensamentos e crenças auto-orientadas, influenciam significativamente a plasticidade neural em vários níveis.

Resumindo, a psicoterapia, envolvendo a psicanálise e a psicologia, reorganiza o psiquismo implicando em uma nova configuração neural e assim alterando a atividade neurofisiológica e neuroquímica nas regiões do cérebro associados à percepção, à dor e as expressões emocionais.

Não para por aí. Além de grandes pesquisas científicas da neurociência que colabora com a Psicanálise, encontramos várias teses de mestrados e doutorados de psicólogos e psiquiatras em universidades como a PUC, USP, UERJ e etc. que envolve a Psicanálise.

Segundo Carlos Pacheco, Doutor em Medicina do Departamento de Psiquiatria da USP, Graduated Fellow do Institute of Living, Hartford, Conn. EUA, o conceito atual neurocientífica de plasticidade cerebral, das redes ou mapas neuronais com suas miríades de sinapses sempre em mudança de maneira ativa em contato com aquilo que vem da realidade interna e externa, dá uma base orgânica estrutural para a teoria e práticas psicanalíticas atuais. A neurociência vem mostrando como o estar consciente depende da sincronização, da sintonia entre várias estruturas corticais e subcorticais.

Temos também boas notícias para a psicanálise freudiana e os estudos sobre a mente humana: a descoberta dos neurônios-espelho, onde MD Magno, Psicanalista, tem afirmado tese semelhante desde 1982, quando postulou o aparelho lógico do REVIRÃO (um princípio de espelho absoluto) como modelo de funcionamento de nossa mente. Revirão é a possibilidade de enantiomorfismo total, a habilidade de pensar o avesso radical de qualquer afirmação e de realizá-lo através da arte e da técnica. Essa competência de nossa mente – agora também comprovada biologicamente no cérebro com a descoberta dos neurônios-espelho – é que dá origem à linguagem humana e sua intrincada estrutura gramatical.

Incluímos, além disso, estudos da neurociência com processos de soluções inconscientes, onde o neurocientista Ullrich Wagner, da Universidade de Lubeck, Alemanha, demonstrou quão poderoso pode ser o processamento de memórias no sono. Ele ensinou aos participantes como resolver um tipo de problema matemático, usando um procedimento longo. Muitos dos participantes descobriram o truque durante a segunda sessão, e esta chance aumentou 59% depois de uma noite de sono. De alguma forma o cérebro adormecido estava solucionando esse problema, sem nem mesmo saber que havia algo para solucionar. Um processo inconsciente.

Isso nos faz retomar os estudos psicanalíticos como um todo, em suas diversas abordagens, em que se pode encontrar que o processo inconsciente está sempre trabalhando. Jung demonstra que o inconsciente também é dinâmico, produz conteúdos, reagrupa os já existentes e trabalha numa relação compensatória e complementar com o consciente.

Agora, também, pode-se postular que o conjunto de circuitos e sinapses, do cérebro, predominantemente programados pelo código genético sirva de suporte para os arquétipos enquanto que os circuitos e sinapses formados durante o desenvolvimento ontogenético constituem o suporte para os complexos que se formam ao redor dos núcleos arquetípicos. Os genes contêm as informações necessárias para, em sinergia com o ambiente químico intra-uterino, estabelecer a estruturação da circuitaria básica, constituindo o que Jung denominou sistemas básicos de ação – “Os arquétipos constituem sistemas de prontidão para a ação e constituem ao mesmo tempo imagens e emoções. São herdados juntamente com a estrutura do cérebro – constituem na verdade o aspecto psíquico dessa estrutura.

Enfim, há vários casos da neurociência, além dos citados acima que por sinal está de forma resumida, cabendo cada um se aprofundar no assunto. Você pode também encontrar no material intitulado “A psicanálise, em suas diversas abordagens e a neurociência” e o material “Emoções na visão da Neurobiologia e Psiquiatria junto à Psicanálise”, estes estudos que colaboram com as pesquisas psicanalíticas.

A psicanálise atual contribui cada vez mais para compreensão da mente humana, seus distúrbios e seu tratamento. Por outro lado, as neurociências vêm confirmando inúmeros postulados psicanalíticos modernos, no estudo das funções cerebrais mais diferenciadas. Entretanto, os neurocientistas não podem mais deixar de lado as contribuições da ciência do inconsciente (a psicanálise), como nós psicanalistas não desprezamos os desenvolvimentos dos conhecimentos das ciências cognitivas e das neurociências em geral.

Se os psicanalistas do futuro e da atualidade não querem continuar no passado, é preciso que acompanhe a ciência. A ciência psicanalítica já atinge hoje dimensões nada desprezíveis para a compreensão do ente humano na sua unidade e no seu relacionamento interpessoal, tanto na saúde como na doença. Acredito que como analistas deveríamos mostrar, cada vez mais, para além das teorizações, aquilo que fazemos e como fazemos.

Esse conceito entre a psicanálise e a neurociência estar tão harmonizado que podemos já evidenciar o método neuropsicanalítico. Após um século de psicanálise, esta continua a ampliar seu campo de trabalho. Com o mais recente advento do método neuropsicanalítico, derivado do método neuropsicológico de Luria, a psicanálise estende mais uma vez sua capacidade clínica ao iniciar o tratamento de pacientes com lesões neurológicas.

Além disso, a neuropsicanálise representa um retorno ao Freud neurologista, precursor da neurociência atual. Assim como Fausto, a psicanálise tem uma dívida com o seu Mefisto; e mesmo que tenha se distanciado da ciência nos últimos anos, esta mesma ciência - atualmente, como neurociência - vem, como Mefisto, lembrar a dívida histórica aos atuais discípulos de Sigmund Freud, o nosso Fausto. A neuropsicanálise surge, então, como uma das possibilidades de quitar essa dívida histórica da psicanálise com a ciência.

A neuropsicanálise, enquanto movimento, veio sacudir o meio psicanalítico, oferecendo um novo paradigma para a psicanálise no século XXI. Não obstante, o método neuropsicanalítico precisa de um arcabouço teórico que ofereça conceitos bem delineados e bem definidos, numa linguagem conceitual, científica. Freud nos ofereceu tais conceitos quando desenvolveu, paralelamente à prática psicanalítica, a sua metapsicologia. Esta representa a teoria psicanalítica pura, uma teoria sobre a mente humana. A metapsicologia freudiana foi construída para ser uma ciência.

Mas, será que os psicanalistas da atualidade, na sua maioria, estão informados deste feito entre a psicanálise e a neurociência? Não adianta tentar adaptar os novos sintomas às velhas teorias explicativas, mas é necessário revisar a própria teoria. Isto pode ser resolvido se os psicanalistas estivessem mais abertos não só para as novas produções culturais, mas, sobretudo, para as novas descobertas realizadas no meio científico.

Pensando assim, é interessante buscarmos os conceitos psicanalíticos do período de Freud, conectar com a Psicanálise Nova de MD Magno, com a Psicanálise Integrativa de Fátima Mora e colocarmos em prática tendo como referência o paradigma científico que é a neurociência, formando o saber atual. Isto se chama integração, a psicanálise precisa ser integrativa.

Acredito, que este é o desafio lançado para os psicanalistas atuais: pensar a psicanálise tendo como referência o paradigma científico de sua época. A psicanálise do futuro está chegando, quem quiser acompanhá-la, quem tem realmente um espírito científico, vai crescer junto com ela, mas quem não tem, ficará para trás.

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