Wilhelm Fliess
24 de outubro 1858 em Arnswalde, + 13 de outubro de 1928 em Berlim
De uma família de judeus sefardistas, sua mãe observava os ritos religiosos, tradição que Wilhelm não seguiu. Teve um irmão natimorto antes de seu nascimento e uma irmã um ano mais jovem, Clara, que morreu de pneumonia quando Wilhelm tinha vinte anos. Seu pai era comerciante de cereais e suicidou-se pouco depois de Wilhelm completar dezenove anos. Ele não falou desse nem a Freud– que relatou uma outra versão– nem a seus filhos, que só descobriram a verdade após a morte do pai deles.
Fez seus estudos de medicina em Berlim; em 1883, montou consultório como clínico geral, dedicando-se depois a otorrinolaringologia. Sua clientela cresceu rapidamente bem como sua notoriedade. Viajava muito. Esteve em Paris em 1886, um ano antes de seu encontro com Freud, a cujo curso assistiu em Viena. Foi o início de sua amizade, a qual deu lugar a uma abundante correspondência, de 1887 a 1901, com um pico em 1899. Fliess casou com uma vienense oriunda do círculo de pacientes de Josef Breuer, Ida Bondy, e nasceram vários filhos dessa união: Robert (1895), que virá a ser um psicanalista de renome após sua emigração para os Estados Unidos, Pauline (1898), Conrad (1899) e uma filha natimorta em 1902. Freud faz-se tratar por Fliess e apaixona-se por seus trabalhos, nos quais colabora; os dois homens encontram-se cerca de uma vez por ano.
Fliess teve primeiro a idéia de uma correlação entre os órgãos sexuais e o nariz, ao que dá inicialmente o nome de neurose nasalreflexa; depois, em maio de 1895, estando sua mulher grávida do primeiro filho ele tem a revelação da teoria dos períodos como solução para o enigma do determinismo do momento da fecundação e da escolha do sexo da criança. A partir desse instante, formaliza-se o seu sistema, o qual postula a existência de uma harmonia cósmica regida por ciclos solares, contado em dias e anos, entre eventos pessoais, familiares e sociais, mas proveniente também dos reinos vegetais e animal. Todos os acontecimentos vitais são estritamente determinados por dois períodos: um masculino de vinte e dias e um feminino de vinte e oito dias, os quais se transmitem de geração em geração, de mães a filhos. A essa biperiodicidade bissexual soma-se a idéia de uma bilateralidade que representa a marca de simultaneidade dos dois períodos do corpo, sendo a metade esquerda portadora de qualidades e dos defeitos do sexo oposto do sujeito. Freud interessou-se por vários aspectos dessa teoria, mas duvidou da coesão das três “bi”, essencial para Fliess, o que Fliess interpreta como uma rejeição. Considerou-a de forma persecutória e começa em 1900 a distanciar-se de seu amigo, sem que Freud se desse bem conta disso.
A ruptura definitiva só se deu em 1906. Simultaneamente com a publicação de sua obra fundamental sobre a teoria dos períodos, O curso da vida. Fundamentos de uma biologia exata, Fliess redige um violento panfleto, Em defesa de minha própria causa, no qual acusa Freud de ter servido de para o plagio de sua obra cometido por dois jovens autores vienenses, Hermann Swoboda e Otto Weininger, que se teriam apropriado, cada um deles, de uma metade de suas idéias.
Após o rompimento com seu amigo, Freud destruiu todas as cartas que tinha recebido dele e concebeu uma teoria da paranóia a partir de seu caso, que aplicou ao mesmo tempo a Daniel Paul Schreber. Ao proceder assim, ele não leva em conta o fato de o delírio de seu amigo ter-se manifestado a partir de 1895, e de o ter encorajado ao mesmo tempo que ele daí extraia um reconforto; é como um avesso da acusação de plagio, na medida em que Fliess se faz copista da natureza com uma convicção inabalável de que os cálculos dos períodos decalcam as cesuras da natureza.
A ignorância e a censura sobre as relações entre Freud e Fliess contribuíram para urdir a versão da auto-análise de Freud como origem mítica da psicanálise, a qual projeta sobre a origem o esquema posterior de uma cura analítica clássica. Fliess não foi o analista do desejo inconsciente de Freud, mas representou uma figura antecipatória do suposto saber do sujeito em biologia, e serviu por isso para unir o desejo de analista de Freud a uma ciência futura ( de cujo domínio cada um tinha uma parcela).
Após seu rompimento com Freud, Fliess continuou se dedicando à prática médica, cuidando de vários analistas (Alix Strachey e Karl Abraham, entre outros) e escrevendo numerosos artigos, sempre sobre os mesmos temas, reunidos em livros. Fez parte, com Ivan Bloch e Ernest Haeckel, da Sociedade Médica de Berlim para as ciências sexuais e a eugenia. Vítima de um câncer do intestino, faleceu em 13 de outubro de 1928. À sua morte, foi saudado como um grande médico berlinense.
Erick Porge
Bibliografia: Abraham, K (1991); Fliess, W (1977, 1987); Freud, S. (1986); Porge, E. (1994)
Complementos: Alemanha; auto-análise; Auto-analyse de Freud Découverte de psychanalyse (L’ -); bissexualidade; cisões psicanalíticas; Eckstein, Emma; Fackel (Die -); Irma (sonho da injeção em -); morte na vida de Freud (A-); “Projeto para uma psicologia científica”; Sexo e caráter; sonhos (sobre os -); Swoboda, Hermann; Weininger, Otto.
Mijolla, Alain in Dicionário Internacional da Psicanálise—Rio de Janeiro: Imago Ed. 2005 pag. 730